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Igreja do Carmo: preservada do abandono, mas a que custo para sua identidade histórica?
As intervenções realizadas no templo da Rua Treze de Maio, em Campos, levantam uma discussão sobre os limites da conservação e a preservação das características do barroco fluminense.
Por Brunno Guimarães
Publicado em 14/10/2026 00:47 • Atualizado 15/10/2026 22:19
Opinião
Fotos: Acervo pessoal. Registros de diferentes períodos da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Campos dos Goytacazes, documentam as transformações arquitetônicas e ornamentais do templo ao longo dos anos.

WEBRÁDIO CONFLUÊNCIA | PATRIMÔNIO HISTÓRICO • ARTIGO DE OPINIÃO

A Igreja de Nossa Senhora do Monte Carmelo, da Ordem Terceira do Carmo, localizada na Rua Treze de Maio, em Campos dos Goytacazes, é um dos importantes patrimônios históricos da cidade. Hoje, encontra-se em bom estado de conservação, mas nem sempre conservar significa preservar a identidade original de um monumento.

Ao longo dos anos, a igreja passou por diversas intervenções que modificaram sua arquitetura. Algumas dessas alterações, em minha avaliação, incorporaram características mais próximas do barroco mineiro, deixando em segundo plano elementos próprios do chamado barroco fluminense. E aqui está uma questão que merece atenção: por que precisamos modificar nossa expressão artística regional para aproximá-la de outra? Será que seremos sempre reféns daquilo que consideramos "mais belo"? Entraríamos aqui em uma longa discussão sobre o conceito de beleza, mas esse não é nosso foco neste momento.

Durante meus estudos sobre patrimônio cultural e arqueologia na Universidade do Algarve, em Portugal, junto ao professor Dr. Francisco Lameira, pude aprofundar meu olhar sobre a arquitetura religiosa e suas diferentes manifestações barrocas. Essa experiência reforçou uma compreensão que considero fundamental: cada região desenvolve características artísticas próprias, e são justamente essas particularidades que dão identidade ao seu patrimônio.

O barroco fluminense tem sua história e suas características. E isso precisa ser respeitado.

Entretanto, é preciso reconhecer o trabalho realizado pela Ordem Terceira do Carmo. A igreja permanece conservada, sustentada pelo esforço e por recursos próprios, sem depender da atuação do poder público. Se dependesse exclusivamente de políticas públicas de manutenção e restauração, qual seria sua situação hoje?

Basta observar o estado de abandono da Igreja do Rosário, também em Campos, cuja situação e responsabilidades de conservação merecem uma discussão própria, que pretendo abordar em outro artigo.

Diante do abandono de tantos edifícios históricos na cidade, é difícil imaginar qual seria a situação da Igreja do Carmo sem o compromisso daqueles que a mantêm.

E é justamente aqui que surge o questionamento: o que seria melhor, uma ruína com características originais ou uma igreja conservada, mas com parte de sua arquitetura descaracterizada?

Nos dois casos, perdemos um pouco da nossa história.

Mas existe uma diferença importante, que merece destaque. A Igreja do Carmo continua ativa, exercendo sua função religiosa e preservando a celebração da liturgia tradicional, segundo o rito de São Pio V. Mantém sua relação com a comunidade e permanece como espaço de culto. Isso também é patrimônio e precisa ser reconhecido.

A crítica, portanto, não deve ser dirigida àqueles que mantêm a igreja de pé, mas à ausência de uma política de preservação que ofereça orientação técnica e condições para conservar nossos monumentos sem comprometer suas características históricas.

Não podemos aceitar que a preservação do patrimônio dependa apenas da boa vontade de instituições religiosas, associações ou particulares. O poder público precisa assumir sua responsabilidade, inclusive contribuindo com custos de conservação e restauração que, muitas vezes, ultrapassam a capacidade financeira dessas entidades, em sua maioria sem fins lucrativos.

A Igreja do Carmo nos apresenta uma reflexão que vai muito além de suas paredes: não basta salvar um monumento da ruína se, ao longo desse processo, deixamos desaparecer aquilo que o torna parte da nossa identidade.

Preservar é manter de pé, mas também é respeitar a história que cada monumento carrega.

E, nesse aspecto, Campos ainda tem muito a aprender sobre o valor do seu patrimônio histórico.

Brunno Guimarães
Historiador

 

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