WEBRÁDIO CONFLUÊNCIA | ARTIGO DE ANÁLISE POLÍTICA
A polarização política brasileira tem concentrado as atenções na disputa entre o PT e a direita ligada ao bolsonarismo. Entretanto, enquanto esses dois campos disputam o protagonismo nacional, um movimento eleitoral merece ser observado com maior atenção: o crescimento das votações associadas ao PSOL, especialmente em São Paulo e Minas Gerais.
O fenômeno não significa necessariamente o enfraquecimento do PT. Pelo contrário, os números mostram que, em determinadas regiões, os dois agrupamentos políticos conseguiram ampliar suas votações simultaneamente.
O que estamos assistindo pode ser algo mais complexo do que uma simples transferência de votos entre partidos de esquerda.
Em São Paulo, os dados eleitorais reunidos para esta análise mostram que o agrupamento associado ao PSOL passou de 438.882 votos, em 2014, para 3.064.286, em 2026, nas eleições para deputado federal. No mesmo período, a representação parlamentar informada passou de um para seis deputados.
O crescimento é expressivo. Entretanto, é necessário considerar que os números correspondem aos respectivos agrupamentos eleitorais, cuja composição e regras de participação mudaram ao longo dos anos.
Ainda assim, a evolução merece investigação.
Em Minas Gerais, a votação atribuída ao agrupamento ligado ao PSOL passou de 76.588 votos, em 2014, para 435.111, em 2026. Já no Rio de Janeiro, o comportamento foi diferente: depois de alcançar 737.755 votos em 2022, o agrupamento registrou 656.318 em 2026.
Portanto, não estamos diante de um crescimento uniforme. Existem realidades estaduais distintas, que precisam ser compreendidas.
Mas talvez o aspecto mais interessante dessa investigação esteja na relação entre o crescimento do PSOL e o desempenho do PT.
Em Minas Gerais, por exemplo, os números apresentados mostram que o agrupamento associado ao PT também cresceu entre 2022 e 2026, passando de 1.782.125 para 2.403.629 votos.
Isso coloca em discussão uma interpretação recorrente: a de que um partido de esquerda só consegue crescer eleitoralmente quando outro perde espaço.
Os dados sugerem que essa relação não é necessariamente tão simples.
Há ainda uma terceira possibilidade, que considero fundamental para compreender esse cenário: a incorporação de eleitores que anteriormente votavam em branco, anulavam o voto, não compareciam às urnas ou apoiavam outras forças políticas.
Em 2026, segundo os dados reunidos para esta análise, São Paulo registrou 2.689.710 votos brancos e nulos, além de 7.687.443 abstenções. No Rio de Janeiro, foram 987.921 votos brancos e nulos e 2.996.650 abstenções. Minas Gerais contabilizou 1.156.949 votos brancos e nulos e 3.734.021 abstenções.
Somados, são aproximadamente 19,2 milhões de eleitores que, nesses três estados, não registraram um voto válido.
É evidente que esse contingente não constitui uma reserva automática de votos para a esquerda, para a direita ou para qualquer partido. As razões para a abstenção e para os votos brancos e nulos são diversas.
Mas esses números ajudam a dimensionar o espaço potencial de mobilização eleitoral existente no país.
E aqui surge uma questão que considero central: o crescimento de determinadas forças políticas está ocorrendo pela transferência de eleitores entre partidos ou pela conquista de pessoas que anteriormente não participavam da escolha de representantes?
Responder a essa pergunta exige estudos mais aprofundados, mas ignorá-la pode limitar nossa compreensão das transformações eleitorais brasileiras.
Existe também uma dimensão histórica que merece atenção.
O impeachment de Dilma Rousseff, concluído em 2016, provocou uma reorganização do poder político nacional. Michel Temer assumiu a Presidência e, em 2017, nomeou Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal.
O episódio demonstra como mudanças políticas podem produzir consequências institucionais que ultrapassam os objetivos imediatos daqueles que participam de determinado processo.
É justamente por isso que considero importante observar a disputa presidencial de 2026 para além do resultado imediato.
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, assim como uma eventual derrota do PT, não significaria automaticamente o desaparecimento ou o fortalecimento de determinada força política.
Entretanto, uma mudança na Presidência poderia alterar as condições de atuação da oposição, as alianças partidárias e a disputa pelo protagonismo dentro da própria esquerda.
O PT historicamente ocupa uma posição central nesse campo político. Sua presença institucional e eleitoral influencia as possibilidades de crescimento de outras legendas.
Mas essa centralidade não significa que o eleitorado de esquerda seja homogêneo ou permaneça vinculado indefinidamente a uma única organização.
O PSOL, por sua vez, constitui uma das forças que precisam ser acompanhadas nesse processo, especialmente diante das mudanças registradas em sua presença eleitoral e parlamentar.
Não se trata de afirmar que o partido substituirá o PT, muito menos de antecipar o resultado de 2030. Trata-se de reconhecer que a política brasileira não se resume à disputa entre duas lideranças ou dois campos eleitorais.
Enquanto parte do debate nacional se concentra em quem vencerá a eleição presidencial, outras transformações podem estar acontecendo na composição do eleitorado e na representação parlamentar.
E essas transformações não podem ser compreendidas apenas pela contagem de votos conquistados ou perdidos por uma legenda.
É necessário observar a participação eleitoral, o comportamento dos votos brancos e nulos, as abstenções, as mudanças nas alianças e a capacidade dos partidos de ampliar sua representação.
A eleição de 2026 pode oferecer elementos importantes para essa investigação.
Talvez a pergunta que devamos fazer não seja apenas quem sairá vitorioso da atual disputa presidencial, mas quais forças políticas estarão se reorganizando para os próximos anos.
Porque, na política, nem todas as mudanças começam pela Presidência da República.
Algumas começam silenciosamente nas urnas que elegem os representantes do Congresso Nacional.
Brunno Guimarães
Historiador
Nota metodológica: Os números utilizados neste artigo foram fornecidos em levantamento preliminar e se referem aos agrupamentos eleitorais associados ao PT e ao PSOL, não necessariamente aos votos exclusivos de cada legenda. As comparações entre 2014 e 2026 exigem considerar as mudanças na legislação eleitoral, especialmente o fim das coligações proporcionais e a adoção das federações partidárias.