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Rádio Confluência
Casarão de Olavo Cardoso agoniza em meio ao abandono: vejo desaparecer diante dos meus olhos parte da nossa história
Ao retornar ao imóvel onde tive uma das minhas primeiras experiências profissionais, encontrei ruínas, vegetação e sinais de grave deterioração. O abandono do patrimônio ligado à história de Campos, de São Fidélis e da Usina de Pureza me leva a uma pergunta ainda mais inquietante: se tratamos assim a memória dos vencedores, o que fizemos com a memória dos vencidos?
Por Brunno Guimarães
Publicado em 23/09/2026 08:52 • Atualizado 15/10/2026 22:18
Região
Registros do casarão mostram a deterioração da fachada, danos na cobertura e vegetação avançando sobre a construção. Fotos: Brunno Guimarães.

Voltei a um lugar que faz parte da minha própria história e encontrei o abandono.

O casarão que pertenceu a Olavo Cardoso, usineiro ligado à história da Usina de Pureza, em São Fidélis, está em um estado que me causou profunda indignação. O que encontrei foram sinais evidentes de deterioração: cobertura comprometida, revestimentos desprendidos, alvenaria exposta, vegetação tomando a construção e elementos arquitetônicos históricos submetidos à ação do tempo.

Para mim, não é simplesmente um prédio velho se deteriorando.

É a nossa história que está se deteriorando junto com ele.

Minha relação com esse casarão é também pessoal. Foi ali que tive uma das minhas primeiras experiências de trabalho em um museu. Foi naquele ambiente que comecei a me aproximar verdadeiramente da História. Costumo dizer que ali fui um “aspirante a historiador”. Muito do olhar que desenvolvi posteriormente começou naquele contato com o patrimônio, com os documentos, com os objetos e com a possibilidade de compreender o passado através de seus vestígios.

Por isso, retornar hoje e encontrar esse cenário provoca algo que ultrapassa a nostalgia.

Provoca indignação.

Não é apenas um casarão...

Quando olho para aquelas paredes, não vejo somente a antiga residência de um usineiro. Vejo um documento histórico construído em tijolo, madeira, ferro e argamassa.

A trajetória de Olavo Cardoso conecta esse imóvel à história da atividade açucareira regional e à Usina de Pureza. Portanto, estamos falando de uma memória que ultrapassa Campos dos Goytacazes e alcança São Fidélis e a formação econômica e social de toda uma região.

Um patrimônio como esse permite discutir arquitetura, economia, trabalho, relações sociais, poder e as transformações ocorridas no Norte Fluminense.

E é justamente por isso que me incomoda tanto vê-lo abandonado.

Não podemos continuar tratando cultura e patrimônio como assuntos secundários da administração pública.

Quando equipamentos culturais desaparecem, quando imóveis históricos são abandonados e quando espaços de memória deixam de receber atenção, não perdemos somente prédios. Perdemos referências que ajudam uma sociedade a compreender de onde veio.

E um povo que perde sistematicamente essas referências começa também a perder parte de sua identidade.

Se fizeram isso com a história dos vencedores…

Foi diante daquele casarão deteriorado que uma questão me ocorreu e talvez seja, para mim, a reflexão mais importante desta reportagem.

Olavo Cardoso pertenceu a uma elite econômica. O próprio casarão, com sua arquitetura e ornamentação, materializa o poder econômico e social de determinado período.

Em outras palavras, estamos diante de um patrimônio relacionado àquilo que tradicionalmente recebeu maior espaço na história oficial: a história dos vencedores.

E então eu me pergunto:

se o patrimônio que conta a história dos vencedores chegou a esse estado, o que aconteceu com o patrimônio dos vencidos?

Onde estão os lugares que contam a história dos trabalhadores das usinas?

Onde estão os vestígios das famílias pobres, dos trabalhadores rurais, dos escravizados e de tantos homens e mulheres anônimos que também construíram Campos, São Fidélis e toda esta região?

Quantos desses lugares desapareceram?

Quantos foram demolidos?

Quantas histórias foram soterradas sem fotografia, inventário, documentação ou qualquer registro que permitisse às gerações seguintes saber que elas existiram?

Essa é uma reflexão que precisamos enfrentar.

A História não é formada apenas pelos grandes proprietários, pelas famílias influentes ou pelos personagens que tiveram seus nomes registrados nos documentos oficiais. Uma sociedade é construída também — e principalmente — por milhares de pessoas anônimas que trabalharam, produziram, sofreram, constituíram famílias e transformaram o território.

Se não preservamos sequer os vestígios materiais daqueles que ocuparam posições privilegiadas, precisamos imaginar a dimensão do apagamento sofrido pelos grupos que historicamente tiveram menos poder para preservar sua própria memória.

O poder público precisa assumir a preservação como prioridade

É aqui que faço uma cobrança clara.

Patrimônio histórico não pode ser lembrado apenas em solenidades, discursos ou datas comemorativas. Preservação exige política pública.

Exige inventário. Exige fiscalização. Exige conservação preventiva. Exige pesquisa. Exige educação patrimonial. Exige recursos. E, sobretudo, exige compreender que cultura não é ornamento administrativo.

Evidentemente, qualquer responsabilização jurídica específica depende de saber quem é o proprietário atual do imóvel, se existe tombamento ou outro instrumento de proteção e quais órgãos possuem competência sobre ele.

Mas existe uma responsabilidade pública mais ampla que não pode ser ignorada: a de construir políticas capazes de identificar, proteger e transmitir o patrimônio cultural de uma sociedade.

Não defendo preservar por preservar.

Não quero uma cidade cheia de prédios fechados simplesmente porque são antigos.

Defendo a preservação porque esses lugares são documentos. Porque contam histórias. Porque ajudam nossas crianças e nossos jovens a compreenderem o território em que nasceram. Porque constituem instrumentos de educação, pesquisa, cultura e identidade.

Um patrimônio recuperado precisa voltar a dialogar com a população.

Pode ser museu. Centro cultural. Arquivo. Espaço educativo. Local de pesquisa. Pode receber exposições e atividades de educação patrimonial. Existem inúmeras possibilidades.

O que ele não pode é simplesmente desaparecer diante dos nossos olhos enquanto todos assistimos passivamente.

Preservar a memória é preservar quem somos

Saí daquele lugar com uma sensação muito diferente daquela que tive quando comecei a trabalhar ali anos atrás.

Naquela época, aquele espaço me aproximou da História.

Hoje, suas ruínas me fizeram pensar sobre o quanto estamos permitindo que a História se afaste de nós.

Não escrevo esta matéria apenas como historiador de oficio que sou. Escrevo também como alguém cuja trajetória pessoal cruzou aquele casarão e que agora assiste a um pedaço dessa memória correr o risco de desaparecer.

É preciso cobrar respostas. É preciso discutir o destino desse patrimônio. E é preciso, principalmente, ampliar o debate para todos os outros patrimônios esquecidos de nossa região.

Porque preservar patrimônio não significa conservar paredes velhas. Significa preservar os vestígios que permitem a um povo reconhecer a própria história.

E termino exatamente com a inquietação que tive diante daquelas ruínas:

Se a história dos vencedores está sendo tratada dessa maneira, imagine quantas vezes a história dos vencidos já foi soterrada.

Brunno Guimarães
Rádio Confluência — Informação que nos une.

 

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